A árvore do balanço
Transporte da árvore ideal por aproximadamente 250 quilômetros, divisão em três partes e reconstrução no local das filmagens com planejamento técnico, grandes parafusos e uma sólida estrutura de concreto.

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO
Engenharia, planejamento e criatividade para transformar desafios aparentemente impossíveis em algumas das imagens mais marcantes do cinema brasileiro.
Memórias de produção — por Marcelo Torres

Falar sobre Abril Despedaçado ainda hoje me arrepia. Foi um filme ao qual dediquei cerca de um ano da minha vida e que me ensinou, mais uma vez, que produzir cinema é transformar o impossível em realidade.
Os desafios começaram muito antes da primeira cena ser filmada. Precisávamos de um canavial em uma região onde praticamente não havia terra fértil nem água suficiente para fazê-lo crescer. Foi preciso criar as condições para que aquele cenário existisse, porque a história dependia dele. No cinema, nada acontece por acaso.
Outro grande desafio foi a árvore do balanço, uma das imagens mais marcantes do filme. Encontramos a árvore ideal a aproximadamente 250 quilômetros da locação. Transportá-la parecia impossível. Tivemos que cortá-la em três partes, planejando cuidadosamente a montagem para que, depois de reconstruída com grandes parafusos e uma sólida estrutura de concreto, parecesse exatamente como era na natureza. Na tela, o público vê apenas uma árvore. Nós víamos meses de planejamento, engenharia e trabalho coletivo.
A bolandeira foi outro capítulo inesquecível. Encontramos uma antiga estrutura da qual apenas três quartos ainda estavam preservados. O restante precisou ser reconstruído. Mas não bastava criar uma peça cenográfica: ela precisava funcionar de verdade. A máquina deveria moer a cana por tração animal, exatamente como acontecia antigamente.
Isso significava trabalhar também com uma junta de bois em pleno set de filmagem. Era necessário adaptar os animais ao ambiente, garantir a segurança da equipe, proteger os equipamentos e fazer com que tudo funcionasse em perfeita sintonia durante as gravações. São detalhes que o público raramente imagina, mas que fazem parte da complexidade de uma grande produção cinematográfica.
As cenas de perseguição pela caatinga nordestina também exigiram uma enorme preparação. O calor, o terreno difícil e as distâncias tornavam cada dia de filmagem um verdadeiro desafio, superado graças ao comprometimento de toda a equipe.
Abril Despedaçado é um filme de rara beleza, mas, para mim, ele representa muito mais do que uma grande obra do cinema brasileiro. Ele simboliza a capacidade da produção de encontrar soluções, superar obstáculos e transformar sonhos em imagens que permanecem na memória do público.
Depois de tantos anos e de tantos filmes realizados, ainda me perguntam qual foi o mais importante da minha carreira. A resposta nunca é simples. Cada produção marcou uma fase da minha vida. Mas Abril Despedaçado certamente ocupa um lugar muito especial, porque nele vivi alguns dos maiores desafios e também algumas das maiores realizações da minha trajetória profissional.
Transporte da árvore ideal por aproximadamente 250 quilômetros, divisão em três partes e reconstrução no local das filmagens com planejamento técnico, grandes parafusos e uma sólida estrutura de concreto.
Recuperação e reconstrução de uma antiga estrutura para que não fosse apenas um elemento cenográfico, mas uma máquina verdadeiramente funcional, capaz de moer cana por meio de tração animal.
Realização de cenas de perseguição em condições extremas de calor, terreno difícil e grandes distâncias, exigindo preparação rigorosa e comprometimento de toda a equipe.
“Produzir cinema é encontrar soluções, superar obstáculos e transformar o impossível em imagens que permanecem na memória do público.”